
O Acre chega ao Dia da Amazônia, celebrado neste sábado, 5 de setembro, com sinais de alerta vindos dos termômetros, dos rios e da floresta. Rio Branco registrou 38,1°C no primeiro dia de setembro, a maior temperatura observada na capital acreana em 2026 até o momento.
Setembro começou mantendo o sinal de alerta. Somente nos três primeiros dias do mês, o Acre já contabilizou 86 focos de queimadas. E a fumaça já alcança as cidades
Os números ajudam a dimensionar um cenário que pode se tornar ainda mais desafiador nos próximos meses. Prognósticos climáticos apontam temperaturas acima da média histórica e redução das chuvas no Acre, enquanto o El Niño se intensifica no Oceano Pacífico.
Uma Nota Técnica da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Acre (Sema) aponta 93% de probabilidade de ocorrência de um El Niño de intensidade muito forte entre setembro e novembro de 2026. No trimestre seguinte, de outubro a dezembro, essa probabilidade chega a 95%.
É neste contexto que o estado celebra uma data criada para chamar atenção para a preservação da maior floresta tropical do planeta. Mais do que discutir a Amazônia como um patrimônio ambiental distante, os dados colocam em evidência uma questão que afeta diretamente quem vive nela: o que acontece quando calor, seca e fogo se encontram?
Rio Branco chega aos 38,1°C
Dados da estação automática A104 do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), instalada na Universidade Federal do Acre (Ufac), mostram que a maior temperatura registrada em Rio Branco neste ano ocorreu em 1º de setembro: 38,1°C.
Exatamente um ano antes, em 1º de setembro de 2025, a máxima registrada havia sido de 37,1°C. A diferença entre os dois registros é de 1°C.
Agosto também apresentou uma máxima superior à observada no mesmo mês do ano passado: 37,1°C em 2026 contra 36,7°C em 2025.
Os valores correspondem às temperaturas máximas e, isoladamente, não permitem concluir que a temperatura média de Rio Branco tenha aumentado na mesma proporção. O dado ganha relevância, entretanto, quando observado ao lado dos prognósticos para os próximos meses.
O Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam) prevê temperaturas acima da média histórica no Acre, além de chuvas abaixo do normal. O cenário também aparece na Nota Técnica da Sema, que aponta temperaturas acima da média para o estado e para a Amazônia Legal.
O geógrafo Anderson Azevedo Mesquita, mestre em Desenvolvimento Regional pela Ufac e doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), explica que eventos mais intensos de El Niño afetam toda a Amazônia.
“Na Amazônia, e obviamente também no Acre, o efeito mais forte, mais intenso, é justamente na redução drástica do volume precipitado, ou seja, das chuvas, um certo atraso das chuvas e, eventualmente, também um aumento das temperaturas”, explica.
Segundo Mesquita, o atraso pode empurrar para dezembro ou até janeiro o início mais consistente das chuvas.
“A gente está numa situação já de seca prolongada, extrema, e imagine se houver ainda um atraso no volume de precipitação. Então, isso vai afetar diretamente o volume de água que a gente vai ter disponível nos rios.”
A avaliação encontra respaldo no alerta emitido pela Sema. A Nota Técnica estadual aponta que, caso as projeções se confirmem, o Acre poderá enfrentar um período prolongado de seca severa entre 2026 e o início de 2027.
Quase 500 focos de queimadas somente em agosto
Enquanto as projeções climáticas olham para os próximos meses, um dos sinais mais preocupantes do período seco já aparece nos dados sobre fogo.
O Acre registrou 487 focos ativos de queimadas em agosto, contra 56 em julho. O crescimento de um mês para o outro foi de aproximadamente 769%.
Com o resultado de agosto, o estado chegou a 584 focos entre janeiro e agosto de 2026. Isso significa que agosto sozinho concentrou aproximadamente 83% de todas as ocorrências contabilizadas nos primeiros oito meses do ano.
A concentração também se intensificou nos últimos dias do mês. Em 28 de agosto foram registrados 125 focos em apenas 24 horas. No dia 30, foram outros 123, e o último dia do mês terminou com mais 51 focos ativos.
E o fogo avançou para setembro. Somente nos três primeiros dias do mês, o Acre já registrou 86 focos de queimadas, segundo dados do Inpe.
O número reforça a preocupação justamente no início de um período para o qual as previsões indicam temperaturas acima da média e menos chuva. Em 2025, setembro foi o mês com maior número de focos do ano, chegando a 840 registros.
A comparação, no entanto, exige cautela. Os 86 focos contabilizados até o dia 3 representam apenas o começo do mês e não permitem antecipar como setembro terminará.
Também é importante observar que, apesar da forte alta entre julho e agosto, o acumulado de 2026 ainda está abaixo do ano passado. Entre janeiro e agosto de 2025, o Acre havia registrado 752 focos, contra 584 no mesmo período deste ano — uma redução aproximada de 22%.
Mesmo agosto terminou ligeiramente abaixo de 2025: foram 517 focos naquele ano, ante 487 em 2026. A preocupação está no comportamento observado nos meses seguintes: depois de agosto de 2025, setembro chegou aos 840 focos e outubro registrou outros 558. Ao longo daquele ano, o Acre contabilizou 2.184 focos.
Fonte: A Gazeta do Acre




