
Nem sempre quem está enfrentando um sofrimento emocional consegue dizer claramente o que está acontecendo. Em alguns casos, os sinais aparecem de forma silenciosa, em mudanças na rotina, no comportamento ou no interesse por atividades que antes faziam parte do dia a dia. É nesse ponto que a atenção de familiares e amigos pode fazer diferença.
Nesta quinta-feira, 10, quando é celebrado o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, a psicóloga Josiane Furtado, coordenadora do Núcleo de Prevenção ao Suicídio do Pronto-Socorro de Rio Branco, explicou sobre comportamentos que podem servir de alerta, onde procurar atendimento e por que o cuidado com a saúde mental precisa ir além do Setembro Amarelo.
No Acre, 62 suicídios foram registrados entre janeiro e julho de 2026, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Do total, 48 vítimas eram homens e 14 eram mulheres.
O número representa uma redução de 6,06% em relação ao mesmo período de 2025. Ainda assim, a taxa registrada no estado chegou a 11,97 vítimas para cada 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 7,56.
Em todo o Brasil, foram contabilizados 9.443 suicídios nos primeiros sete meses de 2026. O levantamento registra 7.349 homens, 2.036 mulheres e 58 vítimas com sexo não informado.

Mudanças de comportamento podem ser sinais de alerta
Para quem convive com uma pessoa em sofrimento, uma das formas de perceber que algo mudou é observar alterações significativas no comportamento e na rotina.
Segundo Josiane, mudanças consideradas muito drásticas podem chamar a atenção de familiares e amigos, principalmente quando envolvem atividades que antes despertavam interesse ou prazer.
“Então, como observar? Na verdade, devemos observar mudanças comportamentais muito drásticas. Pessoas que tinham prazer da parte laboral, de trabalhar, de se arrumar, e que pararam de se arrumar, por exemplo”, explica.
A profissional ressalta, porém, que nem sempre uma pessoa em sofrimento demonstra sinais perceptíveis, o que pode dificultar a identificação por parte de familiares e amigos.
“Nós temos também algo importante, que é o mais difícil: tem pessoas que não demonstram, e aí é mais difícil os familiares e amigos observarem”, disse.
Onde buscar atendimento
A necessidade de atendimento varia conforme a situação apresentada pelo paciente. Em casos de crise, a pessoa pode passar pela classificação de risco, que avalia a necessidade de atendimento médico e psicológico.
Quando há necessidade de acolhimento psicológico, o paciente pode ser encaminhado ao plantão psicológico. Em situações de maior gravidade, o atendimento pode ocorrer nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) ou no pronto-socorro, inclusive com auxílio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).
Já nos casos de ideação suicida ou histórico de tentativas, quando não existe uma situação de emergência imediata, a orientação é procurar os serviços de saúde mental da rede.
“Em caso de ideação, porque a tentativa acaba que vai para o pronto-socorro, mas no caso de ideação ou históricos anteriores, ele pode ir para o CAPS ou CAPSi”, destaca Josiane.
Preconceito ainda dificulta busca por ajuda
Além da identificação dos sinais, outro desafio está em fazer com que quem precisa de acompanhamento se sinta à vontade para procurar ajuda.
Para Josiane, o estigma em torno da saúde mental ainda é significativo e pode afastar pessoas dos serviços de atendimento psicológico.
“O estigma de saúde mental ainda é muito grande. A gente fala que as pessoas estão evoluindo, mas nem tanto em relação à saúde mental”, explica.
A profissional aponta que ainda existe a percepção equivocada de que procurar um psicólogo significa estar “louco”, inclusive entre adolescentes e jovens.
“As pessoas falam: ‘Ah, não vou para psicóloga, não sou doida’. Então as pessoas ainda têm esse viés, inclusive entre os mais jovens e adolescentes”, afirma.
Prevenção precisa acontecer o ano inteiro
Embora o Setembro Amarelo amplie a discussão sobre prevenção ao suicídio, a atenção à saúde mental não deve ficar concentrada apenas neste período.
A identificação de mudanças, a abertura para conversar e a procura por atendimento especializado fazem parte de um cuidado que precisa continuar ao longo do ano. A rede de saúde dispõe de diferentes portas de entrada, de acordo com a necessidade de cada pessoa.
Onde buscar ajuda
Se você ou alguém próximo estiver em risco imediato, procure uma unidade de emergência ou acione o Samu pelo 192.
- Núcleo de Prevenção ao Suicídio – Pronto-Socorrro de Rio Branco
- Ligue 188 – Centro de Valorização da Vida
- Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)
- Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi)
- Unidades de Pronto Atendimento (UPA)
- Unidades Básicas de Saúde (UBS)
- Unidades de Referência de Atenção Primária (URAPs)
Fonte: A Gazeta do Acre




