
Cruzar as fronteiras do estado em busca de novas oportunidades e mais qualidade de vida tem sido uma decisão cada vez mais comum entre os acreanos. Segundo os dados oficiais mais recentes do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Acre registrou um saldo migratório negativo de 23.744 pessoas, se consolidando como o segundo estado com a maior taxa de evasão populacional proporcional do Brasil.
Mas, longe da frieza dos números, o que move dezenas de milhares de acreanos a deixarem tudo para trás? Para o casal Thaís Leandra, influenciadora e empresária de 28 anos, e Carlos Endrio, também empresário de 28, a resposta foi um “impulso” corajoso que começou com uma conversa de varanda e terminou em uma viagem de sete dias cruzando o país dentro de um carro antigo.
“Não houve planejamento nenhum”
Diferente do que muitos imaginam ao ver as fotos bonitas nas redes sociais, a mudança de Thaís e Carlos não foi fruto de anos de economia ou de um emprego garantido no Nordeste. “Não houve planejamento nenhum. Tanto é que a gente perdeu muito dinheiro com as coisas que tinha, pagamos multa para devolver a casa alugada… foi uma decisão de uma hora para outra, no ‘pá pum’”, revelou Thaís em entrevista ao portal A GAZETA.
O motor econômico do Acre pesou na decisão. O casal relata que o custo de vida em Rio Branco estava sufocante. “A realidade econômica do Acre foi um grande pilar. A gente vivia para pagar conta. Não ganhava mal, mas o dinheiro não rendia, o custo de vida aí é muito alto e não tínhamos opções de lazer”, desabafou a empresária.
A epopeia na BR: carro quebrado e sacos de lixo em Brasília
Decididos a morar em Maceió, cidade que Carlos achava linda, eles decidiram colocar “a vida inteira dentro de um Fox”. Thaís brinca com a situação: “A gente só tinha uma certeza e um carrinho velho. Afinal, 14 anos de uso não são 14 dias”, enfatizou se referindo ao carro, em um vídeo que compartilhou em suas redes sociais.
Para conter gastos na estrada, eles venderam tudo o que tinham, doaram a cadelinha de estimação (Lola) por não ter como levá-la na viagem e chegaram a se hospedar temporariamente na casa de amigos antes de pegar a rodovia.
Mas a estrada cobra seu preço. Após dias enfrentando o trânsito pesado de caminhões e fumaça na pista, o motor do Fox “deu piti”. O casal ficou parado em uma oficina mecânica na região de Brasília. Sem carro, eles se viram obrigados a caminhar a pé à noite pela capital federal, carregando seus pertences improvisados em sacos de lixo pretos. No meio das roupas, um pedaço do Acre resistia: pacotes de bolacha Miragina aparecem nas imagens salvando a fome do casal.
“Baque” da chegada e os dias de glória
Após 7 dias de estrada e quase 4 mil quilômetros rodados, o casal finalmente avistou a orla de Maceió. Mas o começo na capital alagoana foi duro. “A transição é difícil. É outra cultura, outra estrutura de cidade. Todo mundo falava bem da beira-mar, mas a nossa realidade não era de turista, a gente foi com pouco dinheiro e precisava trabalhar, ganhar dinheiro logo”, relembra Thaís.
Sem conhecer ninguém, eles recorreram ao Facebook e à OLX para mobiliar o novo espaço e encontrar um apartamento. No início, se perdiam pelas ruas e dependiam 100% do Waze; hoje, prestes a completar um mês na cidade, já decoraram os horários de pico do trânsito e comemoram a rápida adaptação.
E os dias de glória prometidos na estrada não demoraram. O vídeo de arquivo mostra que, após superarem o sufoco com o Fox quebrado, o casal conseguiu dar a volta por cima: aparecem sorridentes retirando as chaves de um veículo Volkswagen zero quilômetro em uma concessionária e desfrutando de hospedagens modernas em estilo container com tecnologia digital.
“Quando eu trouxe nossa mudança para a internet, as pessoas nos abraçaram. Tem encorajado muita gente que também quer tentar a vida fora”, comemora a influenciadora.
Alerta que fica para o Acre
Histórias como a de Thaís e Carlos dão rosto aos dados do IBGE que apontam que o Acre perdeu quase 24 mil moradores nos últimos anos devido ao saldo migratório negativo. Enquanto alguns estados vizinhos conseguem reter mais sua população, o Acre sofre com a falta de indústrias, a estagnação do setor privado e o isolamento geográfico, o que acaba empurrando seus jovens e mentes empreendedoras para o litoral ou para o sul do país. Cabe agora às políticas públicas locais tornarem o solo acreano atraente o suficiente para que os próximos jovens não precisem enfiar suas vidas dentro de um porta-malas em busca de um futuro melhor.
Fonte: A Gazeta do Acre




